MANAUS (AM) — Investigadores da Polícia Civil do Estado do Amazonas (PC-AM), vinculados à Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), cumpriram na manhã desta sexta-feira (6) um mandado de busca e apreensão na residência da empresária e ex-candidata ao Governo do Estado, Professora Maria do Carmo Seffair (PL). A ação policial ocorreu logo no início da manhã em seu imóvel localizado no bairro Nossa Senhora das Graças (área do Vieiralves), Zona Centro-Sul de Manaus.
A empresária de 66 anos não estava no imóvel no instante em que as equipes policiais bateram à porta. Maria do Carmo chegou ao local por volta das 6h18, acompanhada por dois advogados, quando os agentes já haviam iniciado os procedimentos de varredura. Durante a diligência, os policiais apreenderam o aparelho celular de uso pessoal da ex-candidata e o seu computador desktop, além de documentos relevantes para o inquérito.
Perícia em dados eletrônicos e nível de participação

O delegado de Polícia Civil Marcelo Martins, designado pela Delegacia Geral para conduzir os trabalhos da operação, informou que a equipe enfrentou atritos técnicos com a defesa durante o cumprimento da ordem judicial, mas garantiu a efetividade da coleta dos materiais eletrônicos.
“Foi uma diligência difícil. Nós encontramos alguma resistência durante a execução do mandado, na medida que tivemos algumas discussões sobre alguns temas técnicos, jurídicos, sobre o alcance do mandado. Mas a gente conseguiu cumprir a ordem judicial. Fizemos a apreensão do aparelho celular da Maria do Carmo e do computador pessoal dela. Esse material vai ter os dados extraídos e nós vamos fazer a análise para avaliar a participação dela nesse crime”, explicou o delegado.
De acordo com a Polícia Civil, a ocorrência de infrações ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já foi formalmente constatada nos autos. A nova fase do inquérito foca em mensurar a responsabilidade individual dos envolvidos na cadeia de produção e distribuição dos conteúdos digitais.
“Uma parte dessa investigação apura se a Maria do Carmo efetivamente participou e qual foi o nível de participação dela. Essa postagem foi feita na rede social dela mesmo, então presume-se que ela em algum momento validou esse material e permitiu que fosse postado”, acrescentou Marcelo Martins, que classificou a manipulação visual como “uma conduta cruel contra a adolescente, vinda de uma mente perversa que usou redes sociais com objetivos escusos”.
O estopim: notícia-crime e acusação de manipulação via IA
A investigação policial foi aberta a partir de uma notícia-crime apresentada pelo senador e governador eleito Omar Aziz (PSD). No dia 25 de outubro de 2026, no discurso oficial logo após a confirmação do resultado das urnas no segundo turno, Aziz denunciou publicamente o uso de materiais de campanha que atacavam sua honra utilizando a imagem de sua filha ainda criança, sentada em seu colo, para associá-lo a acusações de exploração sexual.
Os investigadores da Depca analisam o enquadramento do caso nos artigos 241-A e 241-C do ECA, que tipificam a produção, oferta, transmissão ou divulgação de material com exploração sexual infantil, bem como a simulação de participação de crianças e adolescentes em cenas de conteúdo sexual por meio de montagens ou recursos de inteligência artificial.
As diligências policiais já haviam atingido outros integrantes da estrutura de comunicação da candidatura do PL em outubro. Na ocasião, mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços de Manaus e São Paulo ligados ao jornalista Jefferson Coronel e ao publicitário George Wilde. Ambas as defesas negaram qualquer conduta ilícita ou participação no desenvolvimento dos vídeos manipulados.
Batalha nos tribunais: liminar derrubada e habeas corpus preventivo
O cumprimento das buscas nesta sexta-feira foi o desfecho de um complexo embate jurídico no Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM). No dia 30 de outubro, a desembargadora Onilza Abreu Gerth haviam concedido uma liminar em plantão judiciário de segundo grau que suspendeu temporariamente as buscas na casa de Maria do Carmo, sob o argumento de que a empresária tinha comparecido espontaneamente à Depca no dia anterior (29) para colocar seus aparelhos à disposição da Justiça.
Entretanto, na terça-feira (3), o desembargador Paulo Feitoza reavaliou o feito no mérito e revogou a liminar, autorizando a imediata retomada da operação. O magistrado destacou que a entrega voluntária de dispositivos selecionados pela própria parte investigada não substitui o poder de império de uma busca e apreensão ampla e irrestrita, essencial para resguardar a integridade de provas digitais que podem ser remotamente apagadas ou adulteradas.
Diante do revés, a defesa de Maria do Carmo protocolou na quarta-feira (4) um novo pedido de habeas corpus preventivo junto ao TJAM. Os advogados buscaram obter um salvo-conduto para blindar a ex-candidata contra uma eventual decretação de prisão temporária ou preventiva no curso da apuração. A petição sustenta que a empresária tem colaborado com os atos processuais e que o exercício do direito constitucional ao silêncio em depoimentos presenciais não pode fundamentar medidas de restrição de liberdade.
Declaração nas redes e posicionamento da defesa
Um dia antes da chegada das viaturas, na quinta-feira (5), Maria do Carmo publicou um pronunciamento em formato de vídeo em seus perfis oficiais informando que aguardava as equipes policiais em sua residência. “Eu estou aqui na minha casa, no meu escritório, aguardando a busca e a apreensão que foi anunciada por portais e blogs. Estou aqui para colaborar e acredito que a Justiça dos homens será feita. O fogo, quando não tem palha, não espalha”, declarou a empresária.
Após o término da apreensão dos equipamentos pela Polícia Civil na manhã desta sexta-feira, a assessoria jurídica da Professora Maria do Carmo emitiu uma nota de repúdio classificando as medidas como abusivas.
Nota oficial da Defesa: “A assessoria jurídica da Professora Maria do Carmo (PL) manifesta indignação com a operação de busca e apreensão realizada nesta sexta-feira, 6, na residência da ex-candidata ao Governo do Amazonas. Apesar de ser esperada, a defesa denuncia a condução dos procedimentos, que evidenciam uma escalada de perseguição política e levanta graves questionamentos sobre abuso de autoridade.
Os advogados apontam que garantias legais e prerrogativas da advocacia não foram devidamente respeitadas durante a diligência. A defesa considera inaceitável que direitos fundamentais sejam colocados em segundo plano. Desde o resultado das eleições, a ex-candidata foi alvo de acusações e tem tido sua imagem exposta de forma deliberada por conta de uma denúncia envolvendo a filha do governador eleito Omar Aziz (PSD), fato que já foi publicamente negado.
Chama atenção que um processo que corre em segredo de justiça tenha notícias veiculadas pela imprensa local a todo momento com vazamento de informações. A Professora Maria permanece tranquila, confiante em sua inocência e convicta de que a verdade prevalecerá.”
Próximos passos da perícia criminal
Com os eletrônicos recolhidos e custodiados, o material passará pelo setor de inteligência da Perícia Oficial do Estado do Amazonas para o espelhamento de dados, varredura de conversas em aplicativos de mensagens, arquivos deletados e metadados de publicação.
Simultaneamente, o Tribunal de Justiça do Amazonas apreciará o mérito do habeas corpus preventivo protocolado pela defesa. O inquérito policial segue sob segredo de Justiça por envolver os direitos de uma pessoa menor de idade.
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