Nove em cada dez brasileiros admitem fazer uso de medicamentos sem prescrição médica, segundo pesquisa do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ). O hábito, comum diante de sintomas como dor de cabeça, gripe, febre e dores musculares, acende um alerta no Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos, celebrado em 5 de maio. Especialistas apontam que, embora pareça inofensiva, a automedicação pode atrasar diagnósticos importantes e agravar quadros de saúde.
O principal risco está no alívio imediato dos sintomas sem a investigação da causa. Analgésicos, antitérmicos e antialérgicos podem reduzir desconfortos momentâneos, mas também mascarar sinais de doenças mais complexas. Para o supervisor farmacêutico da rede Santo Remédio, Jhonata Vasconcelos, é preciso diferenciar o uso pontual e orientado de medicamentos da automedicação indiscriminada.
“O uso de medicamentos isentos de prescrição pode ser seguro quando feito de forma consciente e para sintomas leves e pontuais. O problema começa quando a pessoa passa a usar remédios de forma recorrente, sem avaliar a causa do sintoma. Nesse cenário, o medicamento pode esconder sinais importantes e atrasar um diagnóstico que precisa ser feito”, explica.
Sinais de alerta
Identificar quando um sintoma é passageiro ou um indicativo de algo mais sério é um desafio comum. Em geral, manifestações leves, de curta duração e associadas a situações específicas — como uma dor de cabeça após uma noite mal dormida — tendem a não representar risco imediato.
Por outro lado, sinais persistentes ou recorrentes exigem atenção. Sintomas que duram mais de dois ou três dias, surgem sem causa aparente ou aparecem acompanhados de alterações como perda de peso, cansaço extremo, falta de ar ou mudanças no funcionamento intestinal devem ser avaliados por um profissional de saúde.
Nesses casos, o uso contínuo de medicamentos pode não apenas retardar o diagnóstico, mas também contribuir para a evolução silenciosa de doenças. “O corpo dá sinais. Quando eles se repetem ou se intensificam, é um indicativo de que algo precisa ser investigado. Ignorar isso pode trazer consequências mais sérias”, reforça o farmacêutico.
Uso indiscriminado
Entre os comportamentos mais preocupantes está o uso de antibióticos sem prescrição médica. A prática, ainda comum no país, representa um risco não apenas individual, mas coletivo, ao favorecer a resistência bacteriana — problema reconhecido como um dos maiores desafios de saúde pública global.
“Muitas pessoas associam dor de garganta a infecção bacteriana e recorrem ao antibiótico por conta própria. No entanto, grande parte desses casos tem origem viral, e o medicamento não terá efeito. Além de não resolver, esse uso inadequado contribui para tornar as bactérias mais resistentes”, alerta Vasconcelos.
Outro ponto crítico é o reaproveitamento de receitas antigas ou a repetição de tratamentos anteriores sem avaliação adequada. Cada quadro clínico possui características próprias, e o que funcionou em um momento pode não ser eficaz — ou seguro — em outro.
Além disso, o uso prolongado de anti-inflamatórios e analgésicos, bastante comuns na automedicação, pode causar danos ao organismo, especialmente aos rins, ao estômago e ao sistema cardiovascular. Segundo o ICTQ, esses estão entre os medicamentos mais utilizados sem prescrição no Brasil.
Orientação profissional
Diante desse cenário, o papel do farmacêutico ganha destaque como agente de saúde acessível à população. Mais do que dispensar medicamentos, esses profissionais estão habilitados a orientar sobre o uso correto, identificar riscos e encaminhar o paciente quando necessário.
Antes de recorrer a um medicamento por conta própria, a recomendação é avaliar fatores como intensidade e duração do sintoma, frequência com que ele ocorre e presença de outros sinais associados. Também é importante considerar se aquele medicamento já foi indicado previamente por um profissional para a mesma situação.
“A farmácia é muitas vezes o primeiro ponto de contato do paciente com o sistema de saúde. Nosso papel é orientar com responsabilidade. Quando identificamos que não se trata de um caso para automedicação segura, indicamos a procura por atendimento médico”, afirma Vasconcelos.
A conscientização sobre o uso racional de medicamentos é fundamental para reduzir riscos e promover uma relação mais segura com esses produtos. Embora estejam amplamente disponíveis, os medicamentos não são isentos de efeitos adversos e devem ser utilizados com critério.
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