Por Guto Araujo
RESUMO DO REMADOR +
- Por Guto Araujo Por mais de duas décadas acompanhando campanhas presidenciais no Brasil e na América Latina, aprendi que eleições raramente se definem apenas por nomes.
- Elas se decidem por estruturas, timing e pela capacidade de ocupar espaços simbólicos no imaginário do eleitor.
- É exatamente isso que começa a mudar no tabuleiro de 2026.
Por mais de duas décadas acompanhando campanhas presidenciais no Brasil e na América Latina, aprendi que eleições raramente se definem apenas por nomes. Elas se decidem por estruturas, timing e pela capacidade de ocupar espaços simbólicos no imaginário do eleitor. É exatamente isso que começa a mudar no tabuleiro de 2026.
Até pouco tempo, o debate parecia relativamente previsível: a liderança do presidente Lula nas pesquisas, a tentativa de reorganização do bolsonarismo em torno de um herdeiro político e, ao fundo, uma direita fragmentada tentando se entender. A entrada mais coordenada de uma frente de centro entre governadores, articulada pelo presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, altera esse desenho, mesmo que não o resolva.
A possível candidatura de Flávio Bolsonaro cumpre um papel claro: preservar e organizar o núcleo duro do eleitorado bolsonarista. Esse movimento garante competitividade ao campo conservador, mas não produz unidade. Governadores como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ratinho Junior continuam orbitando o debate presidencial, sinalizando que o eleitor de direita deixou de ser monolítico e passou a avaliar desempenho administrativo, viabilidade eleitoral e capacidade de diálogo.
É nesse ponto que a articulação liderada por Kassab ganha relevância estratégica. Ao reunir governadores com perfis distintos, mas discurso convergente em torno de gestão, estabilidade institucional e pragmatismo político, o PSD tenta ocupar um espaço que segue aberto desde 2018: o do eleitor que rejeita tanto a polarização ideológica quanto soluções improvisadas.
Do ponto de vista das pesquisas, porém, o movimento ainda não se converteu em tração nacional. Os levantamentos mais recentes mostram Lula mantendo liderança consistente no primeiro turno, enquanto os nomes do centro aparecem pulverizados, com índices modestos e alta dependência de cenários estimulados. Isso não invalida o projeto, mas evidencia um problema clássico de campanhas nacionais: capital político regional não se transfere automaticamente para o plano federal.
Para o mercado e para agentes econômicos, esse cenário prolonga a incerteza. A ausência de um nome de centro claramente consolidado dificulta a leitura sobre agendas econômicas futuras, compromissos fiscais e capacidade de governabilidade a partir de 2027. Do ponto de vista estratégico, a eleição de 2026 tende a ser menos um plebiscito e mais uma disputa de narrativas sobre estabilidade, continuidade e risco. A frente de centro existe, tem musculatura política e pode crescer, mas precisará acelerar decisões, reduzir vaidades regionais e construir um discurso nacional claro se quiser romper a lógica binária que ainda domina o debate.
Eleições majoritárias não perdoam hesitação prolongada. Quem demora a se apresentar como alternativa real costuma entrar tarde demais na conversa do eleitor. Em 2026, esse relógio já está correndo.
*Guto Araujo é publicitário e estrategista de marketing político. Colaborou em 6 campanhas presidenciais no Brasil e América Latina e mais de trinta campanhas para governos estaduais e prefeituras. É vice-presidente de planejamento do CAMP e co-autor do livro Marketing Político no Brasil.
