A última apresentação de “Aquelas que me habitam” levou o público a uma experiência sensorial e ritualística neste domingo (30), no Teatro da Instalação, em Manaus. O espetáculo, que contou com intérprete de Libras, foi idealizado e interpretado pela artista pesquisadora Francis Baiardi e começou ainda no hall do teatro, onde um canto indígena abriu a programação e estabeleceu a atmosfera espiritual e ancestral que guiaria toda a obra.
Ali mesmo, diante da plateia, Francis iniciou sua primeira fala, uma convocação direta e emotiva às mulheres presentes. “Eu convoco a todas as mulheres a fazer esse rito comigo… […]Minhas irmãs, sejamos como as Ikamiabas, as amazonas, que tenhamos a mesma coragem e resiliência. Não silenciem-se. É urgente”.
Após esse chamado, a artista se despojou das camadas que vestia, revelando uma peça em tom de pele, gesto simbólico que marca o despir de armaduras, narrativas e silenciamentos. Sem precisar orientar com palavras, ela conduziu naturalmente a plateia para dentro do teatro, onde a apresentação teve início no palco.
Cenografia, elementos naturais e ancestralidade
Água, areia, iluminação precisa e sonoridades indígenas compunham a cena, criando uma ambiência que impulsionava a narrativa sobre a força das Ikamiabas, as lendárias mulheres amazônicas. A obra, que une dança, teatro e performance, ecoou temas como resistência, memória e a potência das mulheres que atravessam e moldam a trajetória da artista e da própria Amazônia.
“Essa obra nasce da travessia de muitas mulheres que me atravessam e me sustentam, artistas, mestras, amigas, colaboradoras, mulheres de diferentes territórios. É sobre respeito, resistência e sobre existir num mundo que ainda exige que a gente clame todos os dias. Danço por mim e por elas”, declarou Baiardi.
Participação do público
No final da apresentação, o público foi conduzido ao palco. Em um grande círculo de mãos dadas, artistas e espectadores compartilharam um momento coletivo de força e emoção. Francis retornou ao centro, sendo recebida sob intensos aplausos.
Para o artista circense Jean Winder, que assistiu ao espetáculo pela primeira vez, a experiência foi marcante.
“A Francis Baiardi é uma artista que tem uma trajetória muito renomada, reconhecida e ela é uma potência dentro da linguagem das artes cênicas. Ela entrega esse trabalho de dança, mas que na verdade é interdisciplinar, com muito teatro, com muitos outros recursos em cena. E ter a oportunidade de observar é muito enriquecedor, principalmente para mim, quanto artista, é olhar para um trabalho que definitivamente é uma referência para os artistas da cidade”.
Roda de conversa encerra a noite
Após o espetáculo, a equipe técnica se reuniu com a plateia em uma roda de conversa, discutindo desde o processo criativo até aspectos como trilha sonora, iluminação, direção e a atuação do Observatório do projeto, um espaço formativo que acompanha o desenvolvimento da obra desde o início.
Foram 46 inscritos, dos quais cinco jovens artistas foram selecionados e receberam bolsa de estudo para acompanhar e registrar o percurso criativo: Adriz Rolin, Lucas Nogueira, Fernanda Seixas, Nicole Queiroz e Reysson Brandão. Estudantes universitários, artistas independentes e jovens de diferentes trajetórias.
Realização: Governo do Estado do Amazonas / Conselho Estadual de Cultura / Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa / Governo Federal
FOTO: Leandra Christine
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