O avanço dos carros elétricos no Rio de Janeiro passou a despertar a atenção do crime organizado. Operações recentes das polícias Civil e Militar identificaram pontos clandestinos de recarga em comunidades dominadas por facções criminosas, usados para abastecer veículos roubados ou furtados, sem qualquer custo de energia para os traficantes.
Na última quinta-feira, duranteേഴ uma ação policial na Vila Aliança, na Zona Oeste, agentes localizaram um ponto improvisado de recarga utilizado por integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP). Segundo as investigações, os veículos elétricos abastecidos no local eram fruto de roubo e serviam tanto para uso operacional das facções quanto para desmontagem e revenda de peças no mercado ilegal.
De acordo com a Polícia Civil, estruturas semelhantes já foram encontradas em outras áreas sob domínio do crime, como comunidades do Complexo da Maré — tanto do TCP quanto do Comando Vermelho (CV) — além dos complexos da Penha, Alemão e Chapadão. A prática mais comum é a ligação direta dos carregadores à rede pública, por meio de fraudes conhecidas como “gato de luz”.
O secretário de Polícia Civil do Rio, delegado Felipe Curi, confirmou o crescimento desse tipo de ocorrência e destacou que a facilidade de recarga dentro das comunidades representa uma vantagem logística para o crime organizado.
— O veículo elétrico permite que o criminoso recarregue dentro da favela, evitando deslocamentos e exposição em postos de combustível. Isso reduz riscos e custos — afirmou.
Em 2023, a polícia já havia encontrado um carregador fixo do tipo wallbox instalado por traficantes na Penha, abastecendo veículos avaliados em mais de R$ 200 mil.
Roubo em alta e foco na Baixada Fluminense
Dados internos da corporação indicam que, durante o ano passado, ao menos 54 ocorrências envolvendo apenas uma marca de carro elétrico foram registradas na Baixada Fluminense, sendo 13 somente em Duque de Caxias, município que lidera o ranking de roubos de veículos no estado.
Entre janeiro e novembro do último ano, a 59ª DP (Duque de Caxias) contabilizou 1.232 registros de roubo de veículos, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP). Para a polícia, o aumento pode estar ligado tanto à maior circulação de carros elétricos — que saltaram de 12.754 unidades vendidas em 2024 para mais de 20 mil no ano seguinte — quanto a uma reação do tráfico após grandes operações realizadas em áreas dominadas por facções.
Como resposta, a Polícia Civil intensificou ações como a Operação Torniquete, que ocorre diariamente, e ampliou o foco estratégico sobre cidades da Baixada Fluminense.
Em nota, a concessionária Light informou que atua diariamente no combate a fraudes em parceria com as forças de segurança e que vem adotando medidas técnicas e operacionais para coibir o uso indevido da rede elétrica no abastecimento ilegal de veículos elétricos.
